8.14.2006

A Exclusão Parte II

Com a atitude de excluir os "bandidos", ou todos aqueles que de algum modo feriram alguma regra de conduta que não condiz com os interesses da sociedade no momento, criou-se a ilusão de que os problemas estariam resolvidos. Porém, começamos a nos deparar com a falha do próprio sistema policial e judiciário, corruptos, inescrupulosos, ilegais. Muitas vezes até mais culpados dos que os culpados que eles prendiam e colocavam na cadeia. Passamos a ter medo da polícia, a desconfiar dos juízes, a encarar os advogados como pessoas que tinham a alma já vendida ao diabo. E tudo isso baseado em muitos fatos comprovados e publicados. Mas muitos mesmo!

O povo passou a ter ódio e medo da Justiça. Já não bastava livrar-se dos elementos indesejáveis. Começou-se a desejar uma justiça melhor e mais justa. Os olhos de muitos voltaram-se para os excluídos das cadeias. Será mesmo que estamos excluindo os indivíduos certos? Não estamos deixando de fora, talvez, os piores?

Foucault pensava sobre isso. E como pensava.

Ele pensava que o "poder se exerce em detrimento do povo". "Que a luta anti-judiciária é uma luta contra o poder e não uma luta contra as injustiças, contra as injustiças da justiça e por um melhor funcionamento da instituição judiciária".

"Não deixa de ser surpreendente que sempre que houve motins, revoltas e sedições o aparelho judiciário tenha sido um dos alvos, do mesmo modo que o aparelho fiscal, o exército e as outras formas de poder".

Ele tinha razão quando falava nos alvos dos motins. Prova disso são os ataques que temos visto do PCC. Será que o problema então é mais amplo, não sendo apenas um movimento contra a instituição judiciária, mas contra o poder em si? Faz sentido. Faz muito sentido. Principalmente quando analisamos todas as CPIs e seus resultados (que resultados?), todas as denúncias, as falcatruas, os descaramentos... a incrível falta de caráter dos nossos governantes nas três esferas de poder (municipal, estadual e federal).

Pode ser que a podridão do Poder como um todo está fazendo ruir toda sua macroestrutura e o pilar do sistema carcerário foi o que caiu primeiro.

8.08.2006

A Exclusão Parte I

A partir de agora as mentes irão se misturar. A ponto de não saber qual idéia é de quem. (Se é que alguém ainda é capaz de ter alguma idéia própria, original, já que nada se cria, tudo se transforma. Ou copia.)

A intenção, é claro, não é a de copiar. Mas o que fazer se formamos nossa opinião a partir da opinião de alguém? O consolo é que diante de tantas opiniões, ao escolhermos uma para adotar, ela se mistura com nossos sentimentos e experiências (essas sim só nossas) e acabam enriquecidas de uma forma ou de outra. A própria simpatia que algo dito ou escrito nos proporciona faz parte dessa parte ínfima, mas importante da nossa personalidade que nos permite, ao adotar uma opinião alheia, ao dizê-la, tornarmos nossa.

Mas, afinal, que mentes irão misturar-se a partir de agora? A minha, a de Foucault, e de mais muita gente que meus ouvidos quiseram ouvir e meu coração guardar.

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Quando a sociedade decide excluir do seu convívio elementos que considera nocivos prendendo-os em prisões exerce um poder, que como quase todos é perigoso. Quem deve decidir as situações ou motivos para que uma pessoa seja privada de sua liberdade? Quais os motivos ou situações levados em consideração? Existirão atenuantes?

O que vemos é que uma gama muito grande de atos, ou crimes, levam uma pessoa ao mesmo tipo de punição: a cadeia. Gama esta composta por comportamentos distintos e profundamente diversos. Mas que, repito, levam ao mesmo fim: a cadeia.

O indivíduo que furta bobagens vai para o mesmo local que o indivíduo que rouba a mão armada. O que agride vai para o mesmo local que o que mata. Aquele que mata em situação que poderíamos julgar como um ato tresloucado e impensado, vai para onde aquele que comete assassinatos em condições nefastas, cruéis e desprezíveis também vai. O ser humano que trafica e envenena toda uma geração, vai para o mesmo lugar que o estelionatário (quando pego), onde também vai aquele que emitiu alguns cheques sem fundo. E assim vai... todos sabemos.

O problema se agiganta quando, não bastando irem para o mesmo lugar, estes indivíduos se encontram nesse mesmo lugar. Convivem apertadamente. Aprendem uns com os outros. Uns por quererem. Outros por falta de opção. Outros por revolta. A prisão se transforma em uma grande e organizada escola, com mestres, doutores, alunos e aspirantes. Quem não quer fazer parte disso ou morre,ou, ao sair, volta. A sociedade, que criou a prisão para punir e reabilitar, não acredita na reabilitação. Mesmo se essa ocorrer, ninguém dará oportunidade para ela se mostrar, já que ao criminoso experimenta uma reação social estreitamente ligada ao racismo. E ele volta. Volta para onde é considerado, onde aprende, onde vive.

Com essa eliminação de uma das funções da prisão – a reabilitação – a sociedade tornou clara sua opção de eliminação de seus quadros desses elementos que ela considera indesejáveis. Não quer mais vê-los. Simplesmente excluí-os, e não quer nem perder tempo em se manter a par e atenta com o que ocorre dentro dessas instituições. E lá dentro, essa massa excluída se organiza, se fortalece, se desenvolve com a tranqüilidade que essa exclusão proporciona. Ninguém quer tê-los, ninguém quer saber deles... Atrás das grades, desfrutam de extrema liberdade. Corrompem, mandam, “trabalham”, praticam ainda mais crimes. Protegidos.

Quem está preso agora? Quem está com medo? Quem está sendo punido?

8.05.2006

Foucault - Breve Biografia.

Paul-Michel Foucault nasceu em Poitiers, na França, em 15 de outubro de 1926.

Filho de pai médico, com a expectativa de seguir a tradição de seus antepassados e herdeiro de toda uma geração de médicos de sobrenome Foucault, Michel tenta ingressar na Escola Normal Superior (em 1945), tendo sido reprovado na primeira vez que tentou.

Esse fato marcou a vida de Foucault, pois no Liceu onde foi estudar em função dessa reprovação, foi aluno de Jean Hyppolite, importante filósofo que trabalhava o hegelianismo* na França.

*(O hegelianismo deriva-se das teorias de Georg Wlhelm Friedrich Hegel, que, no início do séc.XIX, criticou todas as concepções anteriores de filosofia como sendo sem vida, tendenciosas e não históricas.

Hegel, afirmava que a filosofia está sempre enraizada na história, embora sempre persiga uma concepção de realidade como um todo em evolução, em que cada parte é animada por todas as outras.

O hegelianismo, critica incisivamente a tradição filosófica, baseia-se na idéia de que a autêntica filosófica é essencialmente o “estudo da lógica”, ou seja, de padrões formais de raciocínio abstraídos de seus contextos metafísicos, éticos, epistemológicos ou históricos.)


Seu próximo passo é estudar, a partir de 1946, na Escola Normal Superior da França. Ai conhece e mantém contatos com Pierre Bourdieu, Jean-Paul Sartre, Paul Veyne, entre outros. Na Escola Normal, Foucault também é aluno de Maurice Merleau-Ponty.

Dois anos depois, Foucault se gradua em Filosofia na Sorbonne. Em 1949, Foucault se diploma em Psicologia e conclui seus Estudos Superiores de Filosofia , com uma tese sobre Hegel, sob a orientação de Jean Hyppolite.

Em meio a angústias e descaminhos que levaram Foucault a algumas tentativas de suicídio, o pensador adere ao Partido Comunista Francês em 1950, ao qual fica ligado pouco tempo em função de desavenças políticas e de "intromissões" pessoais que o partido faz na vida de seus participantes.

Em 1951, Foucault torna-se professor de psicologia na Escola Normal Superior, onde tem como alunos Derrida e Paul Veyne, entre outros. Neste mesmo ano ele trabalha junto ao Hospital Psiquiátrico de Saint-Anne.

Também na década de 1950, evidencia-se a afinidade de Foucault pelas artes. Podemos observá-lo estudando o surrealismo, por exemplo, em 1952 e René Char em 1953. Mais ou menos nesse período, Foucault segue o famoso Seminário de Jacques Lacan. Maurice Blanchot e Georges Bataille aproximam Foucault de Nietzsche, ao mesmo tempo em que ele recebe seu diploma em Psicologia Experimental (fase em que Foucault se aplica a Janet, Piaget, Lacan e Freud).

Começa, então, a fase mais produtiva, no sentido acadêmico, na vida de Foucault. Fase esta que vai até o final da década de 1970. Em 1971, Foucault assume a cadeira de Jean Hyppolite na disciplina História dos Sistemas de Pensamento. A aula inaugural de Foucault nessa cadeira foi a famosa "Ordem do discurso".

Aos 28 anos Publicou Maladie Mentale et Psychologie (1954; Doença Mental e Psicologia), mas foi com Histoire de la Folie à l’âge Classique (1961; História da Loucura), sua tese de doutorado na Sorbone, que firmou-se como Filósofo. Neste livro, analisou as práticas dos séculos XVII e XVIII que levaram à exclusão do convívio social dos "desprovidos de razão". Foucault preferia ser chamado de "arqueólogo", dedicado à reconstituição do que mais profundo existe numa cultura - arqueólogo do silêncio imposto ao louco, da visão médica (Naissance de la clinique, 1963; Nascimento da Clínica), das ciências humanas (Les Mots et les choses,1966; As Palavras e as Coisas), do saber em geral (L’Archeologie du Savoir, 1969; A Arqueologia do Saber).

Surveiller et punir (1975; Vigiar e Punir) é um amplo estudo sobre a disciplina na sociedade moderna, para ele, "uma técnica de produção de corpos dóceis". O instinto da prisão teria por objetivo o marginal do proletariado e assim reduzir a solidariedade e o processo da classe inferior; confinando as ilegalidades da classe dominada, sobreviveriam mais facilmente às ilegalidades da classe dominante*.

*(É nesse aspecto que o próximo texto que estou elaborando se apóia).

Foucault analisou os processos disciplinares empregados nas prisões, considerando-os exemplos da imposição, às pessoas, e padrões "normais" de conduta estabelecida pelas ciências sociais.

A partir desse trabalho, explicitou-se a noção de que as formas de pensamento são também relações de poder, que implicam a coerção e imposição. Assim, é possível lutar contra a dominação representada por certos padrões de pensamento e comportamento sendo, no entanto impossível escapar completamente a todas e quaisquer relações de poder.

Em seus escritos sobre medicina, Foucault criticou a psiquiatria e a psicanálise tradicionais.

Deixou inacabado seu mais ambicioso projeto, Historie de la Sexualité (História da Sexualidade), que pretende mostrar como a sociedade ocidental faz do sexo um instrumento de poder, não por meio da repressão, mas da expressão. O primeiro dos seis volumes anunciados foi publicado em 1976 sob o título La Volonté de Savoir (1976; A Vontade de Saber) e despertou duras críticas.

Em 1984, pouco antes de morrer, publicou outros dois volumes, rompendo um silêncio de oito anos: L’Usage des plaisirs (O uso dos prazeres), que analisa a sexualidade na Grécia Antiga e Le souci de soi (O cuidado de Si), que trata da Roma Antiga.


Foucault teve vários contatos com diversos movimentos políticos. Engajou-se nas disputas políticas nas Guerras do Irã e da Turquia. O Japão é também um local de discussão para Foucault.

Várias vezes esteve no Brasil, onde realizou conferências e firmou amizades como a de Roberto Machado*. Foi no Brasil que pronunciou as importantes conferências sobre A verdade e as formas jurídicas, na PUC do Rio de Janeiro.

*(Roberto Machado é importante psicanalista brasileiro).

Os Estados Unidos atraem Foucault em função do apoio à liberdade intelectual e em função de São Francisco, cidade onde Foucault pode vivenciar algumas experiências marcantes em sua vida pessoal no que diz respeito à sua sexualidade. Berkeley torna-se um pólo de contato entre Foucault e os Estados Unidos. Definitivamente, Foucault sentia-se em casa nos EUA.



Em junho de 1984, em função de complicadores provocados pela AIDS, Foucault tem septicemia e isso provoca sua morte por supuração cerebral no dia 25.

Discutido e estudado por várias áreas do saber, Foucault mostra-se como um pensador arrojado, um intelectual que, preocupado com o presente em que se encontra inserido, percorre os saberes em busca de uma crítica que subverta os esquemas de saberes e práticas que nos subjugam.

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Um pensador que nunca se deixa capturar por classificações...

Dizia ele "Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo".

Um pensador engajado em um trabalho crítico de seu presente, de si mesmo, buscando, por meio da genealogia e da arqueologia as rupturas e descontinuidades que engendram as imagens que temos de nós mesmos, dos outros e do mundo, eis Foucault... forasteiro de si.


*(Fonte: Pesquisa Google)

7.21.2006

Foucault

Perdoe-me, Foucault. Escrevi seu nome errado. Escrevi Focault, mas é Foucault. Mil desculpas.

Conforme disse, fui pesquisar o famigerado filósofo acima. O cara é mais "o cara" do que imaginava. Complexo como todo filósofo deve ser, ele se embrenhou em tudo o que é assunto. De política a sexo. Da vida não fascista à estética e à amizade.

Por isso, não poderia já de imediato traduzir tudo que aprenderei (porque muito ainda tenho que ler), em um texto. Somado a isso, recebi por e-mail uma valiosa contribuição: uma entrevista com o Marcola (ou Marcos Camacho, como queiram).

Prá lá de bom esse material que encontrei e que me foi enviado. Vou viajar muito, a cabeça vai pirar com certeza. Mas não se preocupem. Dividirei boa parte com vocês. Digo boa parte porque, por mais que me esforce, ainda não consigo traduzir em palavras tudo que me vai no pensamento. Tem coisas que só sei, não consigo dizer. Sei que vocês me entendem. Afinal, sentir-se assim é uma experiência comum a toda humanidade.

Até breve.

7.17.2006

Pensar é o Remédio para o Egoísmo?

Existem coisas que, não sei bem por que, marcam a gente. Frases, situações, que, ao acontecerem nos fazem decorá-las, gravá-las na memória. Acho que, por algum motivo, guardamo-as conosco para posterior reflexão ou entendimento. Mesmo aquelas que num primeiro momento pareçam bobas, ou sem sentido.

Daí, quando algo acontece ou alguém menciona certo assunto - BINGO! - volta na mente aquilo que se guardou, por algum motivo aparente, ou nem tanto.

Foi lá pelos idos 1996, segundo ano de faculdade. Lembro direitinho do dia. O professor de Direito Civil disse que o nosso sistema penal/carcerário estava falido. Não exatamente o "nosso", querendo referir-se ao brasileiro. Ele acreditava, (ou ainda acredita, não sei), que o sistema penal/carcerário em si era uma instituição falida e ineficiente.

Nossa, eu achei aquilo, na época, uma grande sacada. Só faltava ele expor os motivos que o fizeram chegar a tal conclusão. E tambem arrematar com os argumentos que sustentariam a opinião. Talvez me convencesse. Mas, tanto os motivos quanto os argumentos nunca vieram. E eu nunca tive chance... tá bom! coragem de perguntá-los para ele. Talvez justamente por isso que gravei na mente tal pensamento.

Acontece que, diante dos acontecimentos diários, aqueles que nos amedrontam, espantam e mortificam (os famosos ataques do PCC), o pensamento voltou-me à tona. Não é que o professor tinha razão! Realmente estamos diante de um sistema penal/carcerário falido. Tá, mas isso é muito fácil de perceber. O problema é: Por quê? O que fazer?

Aí, vocês já sabem, uma coisa sempre puxa a outra. No dia seguinte, de manhã, lá estava a Viviane Mosé na Ana Maria Braga falando sobre isso e as idéias de Focault, (será que é assim que escreve?), filósofo que previu o presente caos penitenciário.

Porque todos havemos de concordar que não basta apontar o erro, temos de explicá-lo, entendê-lo para não cometê-lo novamente, ou seja, a velha máxima "deve-se aprender com os erros". Mas, por enquanto, sequer estamos no apontamento do erro. Só concluímos que o sistema não funciona. O por quê ainda está longe de explicação. Ou melhor, está longe da disposição da sociedade para explicá-lo, porque, por mais alarmante que esteja a situação, há o anestesiamento, a apatia, a banalização que sempre acompanha certas catástrofes e tragédias que ainda não aconteceram com a gente mesmo. É dura essa posição, esse egoísmo, mas é assim que acontece. Mas não pode ser assim. Não deve.

Vou pesquisar Focault. Depois eu volto.

7.04.2006

Caos

Estou com muita coisa na cabeça. Quando isso acontece, não consigo escrever. Não dá para escolher uma das coisas que rondam o pensamento. Fico pensando: Se escolher essa idéia a outra vai ficar com ciúmes... Ou: Se escolher essa idéia vou achar que essa é mais importante do que a outra, o que não é verdade.

É tudo um turbilhão de sentimentos, pensamentos, dúvidas, opiniões.

Veja uma prévia panorâmica resumida do caos:

Bandeira do Brasil sendo queimada em foto de jornal. Medo de uma possível cirurgia. Completei 29 e sempre acho que foi 30. Quero e não quero ter filho. Quero menina. Quero menino. O tempo está me deixando pra trás. Uma vontade louca seguida de apatia involuntária para a tal monografia da pós. Não quero ver ninguém. Quero ter todos que amo pertinho. Não consigo pensar um quadro do meu passado em que vivi um momento feliz. Sou muito feliz. São muitos os momentos de felicidade. Uma angústia me acompanha seguida de uma satisfação estupenda...

E aí? Entenderam meu dilema?

Mas a gente tem sempre que começar por algum assunto. Seja qual for o critério de avaliação para escolha o negócio é começar.

Mas hoje não, tá? Eu estou com fome agora...

5.22.2006

Temperar... Temperança

Vovó estava à frente do fogão, regendo, com maestria, suas panelas. Em uma delas mexia o doce de goiaba enquanto ficava de olho no forno onde pães cresciam e douravam. Em cima da pia descansva a massa das bolachinhas de nata que esperavam a vez de entrarem no forno. O óleo estava já bem quente no tacho, e ela deu início à ciranda de bolinhos de chuva que, a medida que fritavam, davam cambalhotas na gordura quente, ficando bem moreninhos. Em meio a toda essa orquestra, a campainha tocou.

-Que bom! Chegaram! Já era hora!

Rapidamente, Vovó abriu a porta, beijou com amor e saudade os netos e foram todos à cozinha.

Sofia já foi logo questionando:

-Todo esse açúcar para preparar a goiabada? Não acha demais não, Vovó?

Sorrindo, Vovó propôs:

-Tudo bem, Sofia. Colocarei só a metade. Daí você experimenta e me diz o que acha, certo?

Contente e achando ter dado um palpite oportuno, Sofia concordou radiante.

-Credo, que azedo! Eca! Nem de longe lembra meu doce favorito.

-Pois é, minha querida. E a diferença está só na quantidade de açúcar. Quanto mais azeda a fruta, mais açúcar ela necessita para se transformar em doce. E estas estavam especialmente azedas. Se você prestar atenção, deveríamos agira da mesma maneira com as pessoas.

-Como assim, Vó?

-Ora, quanto mais "azeda" a pessoa, mais "açúcar", ou seja, amor, deveríamos dar a elas. É batata, Sofia. Elas acabam tornando-se pessoas doces.

-Ah, Vó! É difícil amar quem nos maltrata.

-Sim, concordo. Mas para mudar a situação só assim. Pessoas "azedas" são provas que Deus coloca no nosso caminho. Cabe a nós escolher se as ignoramos, se nos tornamos azedos também ou se conseguimos adoçá-las. Eu acho que é esse último o propósito de Deus. Deveríamos aceitar mais esses desafios divinos.

João, até então calado, percebeu o intento de sua avó naquela tarde.

-O que aconteceu com aquela massa de pão que a senhora jogou no lixo? Parece que ela não cresceu...

-Foi justamente isso, querido. A idade já me faz esquecer de alguns detalhes. Acabei esquecendo do fermento e o pão não cresceu. Tive de descartar toda a massa. Não tinha salvação.

-É como a compreensão e a compaixão com o próximo, não é Vó? Se a gente não compreende, não releva, não ensina os amigos, eles não podem "crescer", melhorar e ajudar-nos a melhorar também. Sem compreensão acabamos igual a massa do pão da senhora. Sem salvação.

-João, você está mais esperto do que eu imaginava...

Sofia compreendeu que a Avó estava comparando pessoas com comida e sentimentos a temperos.

-Vó, o que seria o sal entre as pessoas?

-Bem, pensemos juntos... Sem ele a comida fica tão sem graça. Muito dele a comida fica insuportável...

-Já sei, Vó! A proteção. Devemos proteger os nossos amigos e parentes mas não a ponto de tirar-lhes a responsabilidade de seus atos e erros. Como a mamãe diz, excesso de proteção é mimo e ninguém gosta de criança mimada.

Surpresa com a perspicácia dos netos, Vovó emocionou-se.

-Meus pequenos, minhas jóias.

Abraçou-os com ternura. Apesar da pouquíssima instrução, a vida concedeu-lhe que cumprisse a missão de ensinar aos netos verdadeiros valores da vida. Naquela tarde foi a temperança.